Bullies são odiados ou populares?

Pesquisa recente de Jaana Juvonen, professora de Psicologia do Desenvolvimento, da UCLA, derruba alguns mitos.

“Todo mundo sabe que os bullies na escola atormentam seus pares para compensar uma baixa autoestima e que são desprezados e temidos por todos.

No entanto, a pesquisa de Juvonen mostra que a maioria dos bullies têm altos níveis de autoestima. E mais, são vistos pelos colegas e até pelos professores não como párias, mas como populares – de fato, como alguns dos garotos mais legais da escola.

Bullying – que varia de uma agressão física até espalhar rumores asquerosos via cyberbullying – é um tema de crescente interesse público. No entanto, Juvonen lembra-se de quando ela e seus colegas da UCLA começaram suas pesquisas há uma década atrás, “foi um grande desafio para nós convencermos todas as plateias de que o bullying é um problema. Há dez anos – e até hoje em algumas partes do país e em algumas famílias – acreditava-se que o bullying faz parte do crescimento… e que essas experiências são até necessárias (para as vítimas) porque ajudam ‘a construir o caráter’”.

Ao contrário, ela diz, “nós aprendemos que o bullying pode ter consequências devastadoras” – até mesmo trágicas, como nos casos em que vítimas de bullying cometem suicídio.

Dadas essas sinistras realidades, como pode haver uma conexão entre bullying e popularidade? Juvonen e colegas tropeçaram nessa intrigante dinâmica num estudo de mais de 2000 alunos do sexto ano de escolas públicas etnicamente diversas na área de Los Angeles. Alunos e professores foram solicitados a identificar (anonimamente) quais crianças eram bullies e quais eram vítimas. Também foi pedido que identificassem as crianças mais populares e menos populares – sem saber quem já tinha sido chamado de bully e de vítima. Aí é que ficou interessante.

A pesquisa mostrou que “os bullies são, de longe, as crianças mais legais”, disse Juvonen. “E as vítimas, por sua vez, são pouco legais”.

Aprofundando o trabalho, os pesquisadores ampliaram suas observações para alunos de quarto e quinto anos, na elementary school (Fundamental I) e de sexto, sétimo e oitavo anos (Fundamental II). A ligação bully-legal praticamente não existe na Elementary School e de repente aparece no sexto ano, o primeiro da Middle  School (Fundamental II).

“Claramente, há alguma coisa no ambiente escolar que faz os bullies serem mais valorizados entre os colegas no sexto ano”, disse Juvonen.  O “alguma coisa”, ela especula, tem a ver com a turbulência da transição. “Pense em todas as mudanças que as crianças enfrentam quando passam do Fundamental I para o Fundamental II. A escola não só passa a ser muito maior, mas agora têm professores diferentes para cada matéria, trocam de sala a cada aula (nos EUA) e têm colegas diferentes (nos EUA também).”

Atrapalhados e assustados, não sabendo se se encaixam, “provavelmente desperta uma tendência primal para confiar nos comportamentos de dominação”, ela sugere. As crianças maiores e mais fortes criam uma hierarquia social e se apontam como líderes. Os bullies estão claramente por cima, obtendo poder e status.

Juvonen e colegas observaram atentamente as vítimas dos bullies: Sem amigos e sozinhos, não sabem como dizer ‘Pára com isso” quando um bully ataca. Pior ainda, várias vítimas se culpam, imaginando que deve haver algo inerentemente ruim com elas para que isto aconteça.

Tudo isso pode se somar para um círculo vicioso. A criança tímida que sofre bullying, por exemplo, fica mais retraída ainda. Quando o bullying acontece, responde submissamente e se torna cada vez mais retaída.  Até chegar ao ponto em que “mostra com todo o corpo e o rosto que na verdade é um bom alvo, só esperando para ser pega”.

As escolas têm tido sucesso em policiar e disciplinar bullies individuais, diz Juvonen. “Mas o bullying não é um problema de indivíduos específicos. Bullying é um problema coletivo. Precisamos abordar a dinâmica social. Bullies podem deixar de ser bullies e vítimas podem deixar de ser vítimas. O que vimos é que estes são papéis sociais temporários, e não características permanentes de personalidade”.

Ela sugere que professores e administradores escolares poderiam começar a pensar de forma diferente – até empaticamente – sobre os bullies. “Pensar se não haveria outra forma de lhes oferecer um sentimento de controle e poder sem ser chato para os outros”, ela sugere. “Já vi alguns professores muito espertos fazerem isso. Quando eles percebem que uma criança está constantemente atormentando outras crianças, eles dão um papel especial para elas, canalizando as suas energias de uma forma mais positiva.”

As escolas precisam também fazer um trabalho melhor para ajudar as vítimas, que em geral são esquecidas no drama maior de conter os bullies. “As vítimas podem aprender novas formas de perceber seus apuros e sofrimento, vendo que não há nada nelas que provoca isso e desenvolvendo habilidades sociais efetivas.

Ajudar as crianças – bullies e vítimas da mesma forma – a promover amizades também pode fazer toda a diferença.

“Não chegamos a avaliar o poder das amizades”, disse Juvonen. “Às vezes professores e administradores escolares realmente acham que amizades entre crianças são uma chateação. Querem separar os amigos porque estão perturbando”.

Para crianças solitárias com propensão a se tornarem vítimas, ter apenas um amigo pode ser suficiente para protegê-las.

“Precisamos começar a pensar em programas significativos de coleguismo que as liguem com alguém”, diz Juvonen, “para se ter certeza de que há alguém na escola que, de manhã cedo, diz ‘Oi’ ao invés de bater nelas.”