Perguntas respondidas em 2010 sobre bullying 

 

1)    Qual a definição exata de bullying?

Conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotado por um ou mais alunos contra outro(s), causando dor, angústia e sofrimento.  É uma relação de covardia, em que há um desequilíbrio de poder.

Uma outra característica importante é o silêncio da vítima .

 

2)    O bullying pode envolver agressão física? Os casos de violência física mais graves nas escolas, que estão aparecendo ultimamente na mídia, podem ter alguma relação com o bullying? Podem ser casos de bullying que atingiram dimensões drásticas?

O bullying é o tipo de violência predominante nas escolas.  Uma das formas de bullying é física, incluindo empurrar, bater, puxar o cabelo, chutar, destruir material escolar do colega, etc. 

Muitos dos casos de violência na escola, se bem apurados, podem chegar ao bullying como ponto de partida.  E muitas vezes sáo  uma reação ao bullying sofrido por muito tempo, e a vítima resolve reagir por vingança ou por não suportar mais.

 

Veja exemplos:

 

O jovem Samuel Teles da Conceição, 17 anos, morreu depois de ter sido agredido dentro da sala de aula em Silva Jardim (RJ). Segundo familiares, o motivo da agressão teria sido o corte de cabelo da vítima.

 “ Esses meninos tinham mania de quando a criança cortasse cabelo,  tinha uma brincadeira de dar tapinha, dar soco na cabeça. No dia que o meu primo foi cortar o cabelo, eles começaram a dar tapinhas, socos, e ele achou ruim. Então eles pegaram e juntaram mais de dez meninos e começaram a espancar ele dentro da sala de aula”, explicou a prima de Samuel, Patrícia Teles.  A tia do menino diz que mesmo depois da agressão, ele continuou indo às aulas e não contou logo para os pais porque tinha medo. “Ele foi ameaçado. Os garotos disseram que, se ele contasse, aí é que eles iam espancar ele mesmo”, afirmou a tia. Muito abalada, a mãe reclama da falta de segurança dentro da escola. “Todas as crianças têm direito de estudar, mas não de ser espancado pelo filho de ninguém”, desabafou ela. 01/09/98  www.globo.com

 

Setembro de 2009

A violência nas escolas continua fazendo vítimas. Em São Joaquim da Barra (SP), um menino de apenas 9 anos apanhou de colegas dentro da escola e depois quando saía das aulas.

Segundo informações obtidas pela reportagem, o garoto costumava ser alvo de chacotas por parte dos colegas por ser gago.

O menino chegou a ser pisoteado enquanto estava caído no chão.

Machucado, chegou em casa e escondeu o ocorrido da família, mas na última quinta-feira (17) acabou passando mal na escola e foi levado ao hospital da cidade.

Está internado em Ribeirão Preto com uma lesão grave na coluna cervical e ferimentos pelo corpo, principalmente na cabeça. A polícia suspeita que os agressores sejam da mesma idade da vítima.

O motivo da briga ainda não foi esclarecido mas já se fala em bullying.

Mas é preciso ficar atento pois nem todo tipo de violência na escola se refere ao bullying.  Há diversos outros fatores que resultam em violência.

 

3)    Por que o bullying está aparecendo mais nos últimos anos? Estão fazendo mais estudos, as pessoas estão procurando saber mais sobre o assunto ou o número de casos está aumentando?

Não acho que o bullying esteja realmente aumentando nos últimos anos.  Ele sempre existiu, mas não recebia muita atenção porque era considerado uma brincadeira entre alunos, sem maiores consequências.

Alguns casos brutais, como o de Columbine e o da Virginia Tech, ambos nos EUA, com um enorme número de mortes entre alunos e professores, chamaram a atenção para o bullying. Infelizmente foi necessária uma grande tragédia para despertar o interesse e as pesquisas.

Existe um tipo de bullying, o cyberbullying ou bullying virtual, este sim novo.  Utiliza os meios eletrônicos, computadores e celulares, para praticar o mesmo tipo de comportamento, só que agora de forma virtual.

 

 

4)    Existe algum padrão de personalidade dos praticantes ou vítimas? Por exemplo, as vítimas seriam os alunos “diferentes” ou não pode ser feita esta generalização?

 

VÍTIMA

  • Normalmente calada, cautelosa, sensível

  • Insegura, pouca confiança em si, baixa auto-estima

  • Ansiosa ou deprimida

  • Tem poucos amigos e é socialmente isolada

  • Tende a ser fisicamente mais fraca que seus pares (especialmente os meninos)

  • Os pais tendem a ser superprotetores

O aspecto mais óbvio da personalidade de uma vítima é a sua aparência (gorda, ter orelha grande, usar roupas diferentes, orientação sexual diferente, etc). 

Para Olweus, o pioneiro nos estudos e pesquisas de bullying  o que torna alguém ‘presa fácil’ é a união das características físicas com as psicológicas, como isolamento, falta de comunicação com outras crianças, por exemplo.

Vários autores afirmam, a partir de considerações teóricas e pesquisas de campo, que a falta de habilidade para fazer amigos e manter boas redes de amizade é na verdade o elemento crucial para tornar uma criança vulnerável ao bullying.

 

BULLY

  • Agressivo

  • Visão positiva sobre a agressão

  • Problemas em seguir regras

  • Pouca empatia pelos outros

  • Habilidades sociais inadequadas

  • Raiva é a emoção predominante

  • Provavelmente vive num ambiente familiar instável

 

Estas são características gerais e devemos tomar muito cuidado para não rotular estes alunos.  Gosto muito de um trecho de Barbara Colorosso, autora importante nos EUA:

“Os bullies vêm nas mais diferentes formas e tamanhos: alguns são grandes, alguns são pequenos; alguns são brilhantes, outros nem tanto; alguns são atraentes e outros nem tão atraentes assim; alguns são bastante populares e outros simplesmente detestados por quase todo mundo.  Você nem sempre pode identificar um bully pela sua aparência, mas poderá certamente pelo forma COMO AGEM.”

 

5)    Como a escola e os pais devem tratar este assunto, tanto para prevenção quanto para solução?

Acredito que o primeiro passo é um trabalho sério de conscientização a respeito do bullying.  Ainda estamos muito impregnados com os mitos de que o bullying não passa de brincadeiras dos jovens e crianças, que faz parte da vida, que obriga os alunos a se tornarem fortes numa sociedade competitiva. 

Enquanto não estivermos convencidos de que bullying não é brincadeira, pouco se fará.

As escolas precisam aceitar o fato de que todas têm bullying.  A boa escola é aquela que admite isto e empreende ações para combatê-lo.

As escolas precisam capacitar-se para entender e intervir em casos de bullying.  Deve ter uma política anti-bullying clara, que prevê as sanções para cada caso.

O Mato Grosso do Sul acaba de aprovar uma lei que obriga todas as escolas a se capacitarem e terem programas anti-bullying.  Vamos ver se sai do papel!

Os pais também precisam conhecer o assunto, estar atentos a sinais de que seu filho ou filha pode estar sendo alvo de bullying ou praticando bullying. Na grande maioria das vezes, a vítima manterá o silêncio sobre o que está acontecendo, então fique atento a seu comportamento.

Ao saber que a criança é vítima, os pais devem manter a calma, escutar o que o filho fala e tentar encontrar uma forma de agir.  Sempre procurar a escola, nunca intervir diretamente com o outro aluno ou sua família.

 

6)    Qual a responsabilidade dos pais na criação de uma criança que sofre ou pratica bullying? Qual é a melhor forma de educá-los para evitar estas situações?

O bullying é um comportamento aprendido.  Ninguém nasce praticando bullying.  É claro que existem alguns traços inatos de personalidade que podem tornar uma criança um bully em potencial, mas o ambiente em que vive desempenha um papel fundamental.

Se a criança ou jovem vive num ambiente em que a agressividade é normal (entre os pais, entre os irmãos, dos pais com os filhos) e que é a forma de resolver as situações… Se a criança náo aprendeu sobre empatia, sobre respeitar as diferenças, sobre compaixão… Se a criança foi abusada em algum momento da sua vida… Se os comportamentos errados não são corrigidos… Se é uma criança ou jovem que não aprendeu a conviver com limites…  O caminho para o bullying está já pavimentado!

A forma de evitar que seu filho se torne um bully é a mesma forma de educar em todos os outros aspectos.  É com disciplina, com autoridade (e não autoritarismo), com amor incondicional, com respeito.  É corrigindo quando vê o filho agindo de forma errada, tratando mal empregados, colegas e os próprios pais.  É ter um ambiente caloroso em casa, mas regrado.

 

7)    Quando um caso se torna suficientemente grave para ser levado a um profissional da área psicológica? Ou seja, até quando os casos podem ser resolvidos através de diálogos em casa e na escola?

Na maioria das vezes o caso pode ser resolvido com orientação adequada na escola e em casa, se família e educadores estiverem preparados e usarem o bom senso.  Só o fato de revelar o que está acontecendo, traz um grande alívio.  A família e a escola terão que avaliar até que ponto aquela vítima está profundamente afetada pelos acontecimentos, qual a repercussão em sua autoestima.  É bom lembrar que em geral estas crianças carecem de habilidades sociais e que um acompanhamento psicológico seria bastante proveitoso para torná-la mais segura e sociável.

 

8)    O bully também precisaria de tratamento? A prática do bullying caracteriza algum tipo de desvio?

Acredito que a grande maioria dos alunos que pratica bullying é fruto de circunstâncias desfavoráveis em que estão envolvidos (lares desestruturados, pais muito permissivos, comunidade violenta, mídia violenta, preconceito, ciúmes, influëncia do grupo, desejo de ser aceito, etc etc…) e que precisam de ajuda da mesma forma que as vítimas.  Podem ser orientados e acompanhados para  desaprenderem o comportamento.

Muitas vezes também podem precisar de uma psicoterapia, para aprender a lidar com um temperamento inflamado, com a dificuldade de aceitar limites e regras, etc.

Acontece também, entre os bullies, haver aqueles que apresentam o que se chama de transtorno de conduta e que, em alguns casos, se tornarão os psicopatas da vida adulta.  Estes exigem um acompanhamento mais severo, psiquiátrico inclusive.  Mas, felizmente, de acordo com a minha experiência de 30 anos em escolas, estes são minoria!

 

9)  Recentemente um aluno da sétima série de Minas Gerais foi condenado a pagar uma indenização de R$8.000 a uma colega vítima de bullying praticado por ele. Esta é uma boa maneira de tratar o tema?

Acho que esta é uma forma de mostrar que comportamentos inaceitáveis têm consequências.  Uma forma de acabar com a impunidade.

No entanto, acredito ser melhor tentar resolver a questão dentro da escola, procurando a direção e exigindo uma solução.  Infelizmente a grande maioria das nossas escolas não está preparada para agir nestes casos, por falta de capacitação mesmo.

O caminho judicial deve ser a opção final porque é moroso, caro e também deixa marcas nos envolvidos.

 

10) Quais são as possíveis conseqüências da prática do bullying, tanto para o praticante quando para a vítima? Como uma criança que foi humilhada quando criança se desenvolve? Que tipo de problemas pode apresentar na vida adulta se não receber tratamento? E quanto ao bully, como ele se desenvolve? Que tipo de problemas ele pode apresentar na vida adulta?

 

Vítimas

  • Baixa auto-estima

  •  Dificuldades de aprendizagem

  •  Absenteismo

  •  Queda do rendimento escolar

  •  Doenças psicossomáticas

  • Sentimentos negativos e desejo de vingança

  • Pode desenvolver comportamentos agressivos ou depressivos

  • Ansiedade

  • Stress

  • Idéias de suicídio

A vítima pode levar esta baixa autoestima por toda a vida, tendo dificuldades de relacionamento na vida adulta, tendência a depressão e isolamento.  Há pessoas que ficam traumatizadas para sempre.  Outros conseguem superar e ter uma vida normal.

 

BULLY

  • Experimenta a sensação de consolidação de suas condutas autoritárias

  • Distanciamento e falta de adaptação aos objetivos escolares

  • Supervalorização da violência como forma de obter poder

  • Desenvolve habilidades para futuras condutas delituosas

  • Propensão a adotar comportamentos delinquentes: uso de drogas, porte ilegal de armas, furtos, gangues, etc.

  • É grande a relação entre o bullying e a criminalidade (Olweus)

O agressor, ou bully, se não for orientado, tenderá a repetir estes comportamentos como adulto, nas suas relações pessoais, familiares e profissionais.