Que tipo de criação pode formar crianças agressivas?

 

Traduzo a seguir uma seção do livro de Dan Olwus, Bullying at School:

“À luz da caracterização dos bullies como tendo um padrão de reação agressiva – isto é, eles apresentam comportamento agressivo em várias situações diferentes – torna-se importante examinar a questão: que tipo de criação ou outras condições durante a infância conduzem ao desenvolvimento de um padrão de reação agressiva?

Muito brevemente, quatro fatores foram encontrados como sendo particularmente importantes (baseados principalmente em pesquisa com meninos; ver Olweus, 1980; Loeber & Stouthamer-Loeber, 1986). Primeiro, a atitude emocional básica dos pais, principalmente do cuidador primário (geralmente a mãe), em relação ao menino é muito importante, talvez particularmente a atitude emocional durante os seus primeiros anos. Um atitude básica negativa, caracterizada por falta de calor e envolvimento, aumenta claramente o risco do menino mais tarde se tornar agressivo e hostil em relação aos outros.

Um segundo fator importante é a extensão em que o cuidador primário foi permissivo e permitiu comportamento agressivo por parte da criança. Se o cuidador for geralmente permissivo e ‘tolerante’, sem estabelecer limites claros para o comportamento agressivo em relação aos pares, irmãos e adultos, o nível de agressão da criança provavelmente aumenta.

Nós podemos resumir estes resultados afirmando que muito pouco amor e cuidado e muita ‘liberdade’ na infância são condições que contribuem fortemente para o desenvolvimento de um padrão de reação agressiva.

Um terceiro fator encontrado como aumentando o nível de agressão da criança é o uso pelos pais dosmétodos de criação poder-assertivos como punição física e violentas explosões emocionais. Este resultado sustenta a noção de que ‘violência gera violência’. É importante estabelecer limites claros e impor certas regras sobre o comportamento da criança, mas isto não deve ser feito com o uso da punição física e afins.

Finalmente, o temperamento da criança também desempenha uma parte no desenvolvimento de um padrão de reação agressiva. Uma criança com um temperamento ativo e de cabeça quente é mais provável de se desenvolver como um jovem agressivo do que uma criança com um temperamento mais  calmo. O efeito deste fator é menor do que aquelas duas primeiras condições mencionadas acima.

Existem tendências principais. Em casos individuais outros fatores podem ter sido centrais e o padrão causal pode ser um pouco diferente. No entanto, estes resultados em combinação com outras pesquisas sobre as condições da infância, dão origem à seguinte conclusão importante: Amor e envolvimento da(s) pessoa(s) que cria(m) a criança, limites bem definidos sobre quais comportamentos são permitidos e quais não são, e o uso de métodos não físicos de criação do filho criam crianças harmoniosas e independentes.

Esta conclusão provavelmente é verdadeira para meninos e meninas, e os fatores descritos são importante para crianças menores e maiores. Quando as crianças viram adolescentes, também é essencial que os pais tentem supervisionar as atividades do filho fora da escola e monitorar o que ele/ela faz com seus amigos (Patterson, 1982;Patterson & Stouthamer-Lober, 1984). A maioria das atividades não desejadas incluindo o bullying e comportamento antissocial ou criminal tendem a acontecer quando os pais não sabem o que o filho está fazendo, ou que eles ou outros adultos estão ausentes.

Os fatores que são importantes no desenvolvimento de um padrão de ação agressiva não independem das relações entre os adultos da família. Conflitos e discórdia frequentes ou discussões abertas entre os pais – se levam ou não ao divórcio- vão criar relações inseguras para os filhos e estão relacionadas ao uso dos métodos de criação menos adequados discutidos acima. Em qualquer caso, para evitar possíveis danos, os pais devem evitar envolver o filho como um aliado em conflitos com o parceiro. Algumas pesquisas indicam que quando os conflitos parentais são lidados em particular, existem menos efeitos negativos do que quando acontecem na frente dos filhos (Emery, 1982).

Também é interessante notar quais fatores não estão relacionados ao nível de agressão do menino nos estudos acima mencionados. As condições socioeconômicas da família, incluindo nível de renda, grau de instrução e habitação não se encontram aí. Assim, existem alunos agressivos (e não agressivos) em proporções semelhantes em todas as classes sociais, e o mesmo é verdade para as vítimas (Olweus 1978 e 1981). Da mesma forma, não é possível explicar o fato de que um aluno é um bully ou uma vítima como uma consequência da pobreza da família. Não encontramos também nenhuma associação entre as condições socioeconômicas da família e os quatro fatores de criação dos filhos apresentados acima (1980). A proporção de pais ‘bons’ (e ‘menos bons’) foi aproximadamente a mesma em todas os níveis socioeconômicos. Deve-se notar que esta falta de relação com as condições socioeconômicas podem ser de alguma forma uma consequência da relativa homogeneidade dos países escandinavos a este respeito. Pode ser que estudos de outros países com maiores desigualdades sociais, como os EUA ou a Inglaterra, mostrem associações um pouco mais fortes entre a presença de problemas bully/vítima na criança e as condições socioeconômicas da família.

Até agora, ainda não realizamos análises bastante detalhadas sobre os métodos de criação dos filhos no desenvolvimento de problemas da vítima (mas veja 1993). Não há nada que indique, no entanto, que as vítimas passivas típicas careceram de amor ou cuidado. Por exemplo, os resultados mencionados acima mostraram que as vítimas eram mais próximas e tinham relações mais positivas com os pais (mães) do que os alunos (meninos) em geral. Mas para diminuir o risco de que uma criança ansiosa e insegura se torne uma vítima, é importante que os pais tentem ajudar seu filho para uma maior independência, maior autoconfiança e capacidade de ser assertivo entre seus pares.”